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Solta o som Viado!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

1º conto - O chão.

Felicidade. Ela não existe, não em tempo integral, talvez momentos felizes, mas como tudo na vida, a intensidade de uma vinda, é dobrada na sua partida.

É preciso saber aceitar a partida de um momento feliz, por mais frustrante que este seja.

Não importa como, onde ou por que. O fato é que todos — de uma maneira ou de outra — vão te decepcionar.


-

- A experiência do meu primeiro amor foi intensa, um momento feliz que durou um ano e meio, as brigas só serviam como um petisco apimentado para saborear o prato principal.

Acaso de um pequeno contratempo, foi impossível poder ir a uma festa com ela, que acabou indo com as amigas, corvos predadores que me deixaram em ruínas.

Estava em meu quarto ouvindo músicas, lendo um livro que não me lembro do titulo, uma ligação dela um tanto quanto confusa pedindo um tempo, me deixou em alfa.

Rapidamente telefonei para minha prima que estava na mesma festa, recebi a noticia que minha garota estava agarrada a um cretino aos beijos, meu estomago revirou e eu fui ao banheiro, extraviando toda minha janta.

E pela 1ª vez na minha vida eu perdi o chão.

- Algum tempo depois da minha 1ª decepção, eu já estava melhor, sentia-me revigorado, com forças, creio que renasci das cinzas na questão de emoções.

Minha avó me ajudou a superar momentos ruins, sempre, sempre que chego perto dela sinto seu perfume adocicado, Channel 5, quando a abraço sinto uma energia boa e positiva que adentra em mim como uma corrente e que me revigora, sua pele macia em contato com a minha alivia meu estresse.

Ela é a pessoa que mais amo no mundo, sempre, a única em que confio totalmente. E quanto mais me dava conta da mudança que estava ocorrendo em mim, mais medo eu tinha de decepcioná-la.

Foi um choque grande quando realmente percebi que era gay, a auto-aceitação não foi uma das melhores, mas mesmo assim eu consegui me aceitar e criar coragem para contar para os meus pais, mais o medo de perder minha avó foi maior.

O cerco foi se fechando lentamente, e em uma noite eu fui encurralado, toda a pressão vinda da minha mãe, obstinada na verdade, eu perdi o controle, gritei, chorei e contei. Gritava sobre minha sexualidade e este foi um momento conturbado, logo me dei conta que minha avó estava escutando, e meu coração bateu mais forte.

Após conversas, brigas e humilhações foi decidido que eu deveria ficar na casa da minha avó, e meus pais em casa, para cada um poder colocar a cabeça no lugar.

A verdadeira tempestade não tinha passado, agora iria explicar para minha avó, ela sempre foi muito religiosa, e meu medo se fazia pela religião não aceitar este tipo de relacionamento. Não consegui falar, então eu chorei, e para minha felicidade momentânea, minha avó me acolheu, e me entendeu, e me aceitou.

Após um silencio quebrado apenas pelo choro, que era em parte por aquele segredo ter saído das minhas costas, em parte pela suposta aceitação da minha avó, e em parte por saber o que eu enfrentaria de agora em diante; decidimos ir dormir.

Ela foi para seu quarto e eu para o meu, tinha esquecido de lhe pedir a benção, e eu a vi ajoelhada ao lado de sua cama, rezando em lagrimas.

Foi então que eu perdi o chão pela 2ª vez.

- Eu nunca me dei bem com frustrações, elas me inundam como ondas, destruindo sonhos, desejos, vontades. Eu penso que essas decepções me ajudaram, como se fossem vacinas que me deixam mais resistente contra a infecção de uma não-felicidade momentânea.

Eu mudei, sabia que não poderia confiar mais em ninguém, não poderia mais depender emocionalmente, não se eu quisesse crescer. Eu descobri que não poderia odiar ninguém, este é um sentimento que também cria uma dependência emocional.

Eu cresci, aprendi o sentimento da indiferença, como em um pacto maquiavélico, decidi não ter mais momentos felizes, e com isso não ter mais essas terríveis frustrações. Tornei-me persuasivo, fazendo com que as pessoas fizessem o que eu queria sem que elas soubessem, eu me aproveitava delas.

Não amei mais, apenas satisfazia minhas necessidades físicas, usando as pessoas, como se usa uma embalagem e depois se joga fora, sem se importar com mais nada.

Fui percebendo que ao invés de perder amigos, eu ganhava mais, essas pequenas sanguessugas queriam aproveitar de mim, tentar me usar, mas no final eles acabavam usados.

Apesar de todo o ocorrido nunca me afastei da minha avó, passei alguns momentos difíceis e ela me ajudou a agüentá-los firme, como se eu estivesse no olho de um furacão, sempre me sentia mal, me sentia usando minha avó e isso me dava a impressão de que eu estava sujo, e eu tomava um banho.

Nunca consegui controlar o sentimento que sinto pela minha avó, e também nunca consegui superar aquela cena, que revive em minha cabeça por todo lugar, na escola, em casa e até em meus sonhos.

Então eu me afastei lentamente e sem ninguém notar, eu precisava me fortalecer, mas sem a ajuda de ninguém.

Eu estava sozinho. E foi então que percebi que eu estava criando um monstro social, eu mesmo.

Usando as pessoas, pisando nelas para poder crescer, eu descobri que finalmente tinha alcançado o topo da aparência social.

E quanto mais alto você está, maior será seu tombo, comigo não foi diferente.

Eu não tinha amigos que me queriam realmente por perto, eu não tinha alguém que me ama-se verdadeiramente, e que eu podia amar.

Foi então que eu caí, totalmente sem forças para levantar sozinho, eu percebi que já não tinha mais ninguém para me ajudar, e eu tive que me humilhar e rastejar, para começar do zero.

E foi então que eu perdi o chão pela 3ª vez.

Fim.

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