- Raiva, revolta, tristeza, cansaço, motivos que me levaram a começar a fumar; algum tempo após minha 1ª decepção conjugal meus sentimentos ainda estavam sensibilizados pela perda, aquele buraco, a sensação de vazio não havia passado, e por pura e espontânea pressão emocional eu fumei meu primeiro cigarro.
Quando pequeno, nunca senti o desejo, a vontade de experimentar um cigarro, ao contrario, os detestava e sempre que via um o quebrava e destruía como um simples graveto.
Resolvi beber, senti aquele liquido queimando minha garganta, um sabor doce que inundava minha boca, não conseguia decifrar aquele sabor sensacional, o descrevi como o néctar dos Deuses.
Eu queria mais, eu precisava de mais, e mais, e mais. De repente me senti estranho, não tinha controle total sobre meus movimentos, sentia como se não soubesse o que fazia, como se não pudesse me controlar, minhas pernas estavam bambas, e tudo girava, eu não entendia bem o que estava acontecendo, mais me senti bem, eu gostei daquele estado, descobri uma forma de fuga.
Eu dancei, eu briguei, eu chorei, eu sorri, eu fui eu mesmo a todo momento, eu fiz coisas que nunca faria se não estivesse daquele jeito.
Um pouco antes naquela noite eu tinha passado um perfume chamado AZZARO, estava bem arrumado, e acendi um cigarro, o cheiro do cigarro fundido com o odor amadeirado do perfume me revigorou me fez sentir mais homem, tudo uma ilusão, mas foi a sensação que tive.
Após muitas idas e vindas na festa eu fui levado embora, e o balançar do carro me deu náuseas, cheguei em casa e corri direto para o banheiro onde todo aquele liquido doce migrou.
Eu dormi, não, melhor dizendo, eu desmaiei, acordei com um gosto estranho na boca e na garganta, não sabia o que era, eu queria coca, era isso, uma coca-cola bem gelada, eu bebi todo o refrigerante em praticamente uma golada só, meus olhos se encheram de lagrimas, culpa do gás do refrigerante.
Percebi que tinha algo a mais me incomodando, uma tremenda dor de cabeça, parecia que eu tinha levado uma marretada na cabeça. Eu fui apresentado para a famosa ressaca, que não me deixou por um bom tempo.
Cigarros e bebidas são usados como uma fuga, algo para enviar a realidade para um lugar distante, onde demore a voltar, mas ela sempre volta.
Eu gosto de beber, mas no meu caso eu não quero fugir da realidade, ao contrario, quero entrar nela. Eu descobri que quando eu bebo, faço tudo o que gostaria, mas não faço, eu posso ser realmente eu sem dar atenção a julgamentos hipócritas e falar tudo o que eu desejo.
A bebida fez algo por mim, não preciso mais dela para falar o que desejo, eu aprendi a não me importar com a opinião alheia, e que essas pessoas só fazem isso para tentar fugir de sua própria realidade.
Em certa parte, eu consegui sair dessa hipocrisia constante e mediocridade que o próprio ser humano condena e pratica ao mesmo tempo.
O cigarro me acalma, vendo minha imagem fumando, vejo a ilusão de uma pessoa forte independente e madura, foi então que descobri que são as pessoas menos seguras de si que fumam, não queria ser uma pessoa dessas, desde então estou tentando parar.
Tem horas que eu decido tomar um porre, pra poder ter sentimentos além da indiferença, eu amo e odeio uma pessoa ao mesmo tempo, eu estou sorrindo e chorando pela mesma coisa e no final das contas, eu sei que no outro dia não vou lembrar de nada. Um ato de covardia.
Eu vejo a fumaça saindo de mim com seu cheiro forte de tabaco, que muitos detestam mais que de algum modo me hipnotiza. Eu me sinto melhor, como se junto da fumaça os pensamentos tristes e apavorantes fossem embora. Por um curto período de tempo.
Acendo mais um cigarro, e cometo mais um ato de covardia.
Fim.







